segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Eu digo que sou uma pessoa que gosta de saber o que está fazendo. Mas estranhamente, nesse campo, eu gosto dos acasos. Não é uma coisa que a gente pense 'vamos fazer assim'. 'vamos pra lá'. 'te encontro amanhã, esteja pronta'. Não. Eu gosto não do susto da surpresa, mas o prazer do não sentir. Porque se eu sentir algo, com certeza vai ser medo, porque toda vez que eu sinto algum tipo de expectativa, essa expectativa vem seguida do medo. E depois, a desistência. Porque não aguento a dor. Eu não gostava de ir na montanha-russa quando era criança, e não gosto até hoje. Porque não gosto do que tem ali. É algo programado, mas algo que antecipo e por isso, sinto medo.
Então, não faço. Se vai me dar medo, não vou fazer. Mas se quiser que eu faça algo, faça com que eu faça sem saber. Pra não doer.
Ele queria uma intimidade diferente do que eu desejava. Não uma intimidade maior. Só diferente. Talvez ele fosse um homem diferente mas como posso imaginar o que estava se passando pela cabeça dele? Ele perguntou onde eu ia, mas não perguntou meu nome. Disse que eu não 'parecia daqui'. Eu não me pareço com ninguém. Interessante, né?
Na verdade talvez eu não quisesse intimidade nenhuma, e tudo fosse só uma obrigação mulheril de se fazer aceita[notada] e lembrada[desejada] por qualquer pessoa cuja atenção consiga capturar. Eu já podia imaginar acordando sobressaltada pelo quente da mão dele sobre minha coxa. O que ele explicaria?
Eu tinha o quente da voz, porém. Mas não conseguia sentir calor algum porque entre o lóbulo da minha orelha e a boca dele se encontrava a névoa do medo, e então tudo o que eu sentia era um desejo enorme de sair dali..
..mas um enorme desejo de ficar, fazer esse medo ir embora e sentir algum calor vindo da mão dele. Talvez não fosse o que eu honestamente queria, mas mas só eu sei o tanto que eu precisava.

sábado, 1 de dezembro de 2012

Eu já lhe disse como escuto música?
Eu não escuto. A música é apenas um intermédio para melhor visualização dos meus sonhos que demandam a trilha sonora. Os passos e o rosto e os movimentos são o principal. Não a música. Eu não ouço pelo prazer das notas, mas pelo prazer de me ver executando aquele movimento para alguém em especial.
Minha mente então não descansa. Aliás, acho que ela não descansa quando estou relaxada. Eu não sei o que é dormir para descansar. Meu único propósito de ir para a cama é sonhar com um mundo tão belo e talvez real ao que eu vivo quando ouço a música. Coisa que não acontece enquanto estou acordada e ativa.
Esses dias, porém, tenho tido o vazio enorme de não ter nenhuma imagem pronta, nenhuma expectativa que me faça querer fechar os olhos. E então eu me forço e em vez das minhas belas imagens, demônios aparecem. E me deixam ainda mais acordada.
Esse esforço deixa minha mente cansada, enquanto meus dias ficam vazios. Eu sei que para alimentar meus sonhos eu preciso colocar um pouco de vida. Mas não existe vida em mim. Eu só viveria se não fosse eu.
Eu realmente gostaria de ser alguém diferente, para poder viver. Mas diferente de um modo que eu não pensasse 'oh como estou diferente', mas que fosse no automático e eu não olhasse para trás ou para o espelho. Por que a partir do momento em que isso acontecesse, eu lembraria que minha mente sabe que 'não devo existir'  e então me recolherei.

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Bastou um segundo para a vida voltar a correr em mim. Eu até podia sentir alguma, sei lá, centelha acendendo e iluminando e colorindo minhas veias e meus olhos se dilatassem, e você não quis procurar meus olhos e o brilho que se acendeu neles [sorte sua ou minha?], então a sensação foi somente minha.
O que me preocupa é querer saber por que isso acontece. É você quem pode me trazer de volta à vida e me fazer existir em ondas contínuas de excitação e medo que permitirão que meu corpo adquira energia para funcionar? Meu coração não me diz nada. Mas meu corpo dispara todos os alertas involuntariamente, e eu não sei se isso é porque ele, sei lá, sabe das coisas ou se é justamente porque você tem o rosto dessa cidade e é o único símbolo de vida que ela carrega. Você parece ser a única pessoa daqui que parece ter algo a me dizer [e que eu teria o prazer de ouvir].

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Você é tão livre e sua liberdade tanto me ocupa enquanto não tenho uma própria.... para isso que você existe.... para me deixar que eu o agarre. Que eu faça o que eu quiser com você sem que você precise de mim e então eu não te incomode....
Foi hoje que finalmente presenciei a assumi minha condição de não-existência. Bastaram algumas horas de cansaço [físico e superficial, para dizer a verdade], que por fim se transformaram num jorro de palavras guardadas por uns bons anos e a automática libertação, e depois a realização.
Mas é uma coisa fácil de perceber. A minha não-existência é opcional. É como se eu fosse a eterna narradora-observadora, nunca se rebaixando às belezas e aos erros do personagem. Todos são personagens, e o meu maior desejo é ser um. No entanto quando eu me vejo vestida de humana eu não me reconheço, como se tudo o que eu fizesse fosse mecânico e que todos tivessem consciência de que eram pré-determinados. Como um ator ruim que deixa o espectador sair do mundo da verossimilhança para voltar à realidade por não ser envolvido pela realidade esperada que o ator o envolvesse.
Eu não existo porque não quero me submeter à certas coisas. Eu não quero estar errada. Eu não quero ser uma vergonha. Eu quero ser perfeita. Mas eu não sou. Então prefiro não existir. Do que alimentar esse mundo já tão cheio de pessoas cheias de si que adoram contar seus erros para transformá-los em algum objeto de exposição e então de valor. Eu sinto vergonha de me imaginar existindo, é como se eu não me imaginasse agindo, sentindo, sem alguma manipulação, e sem julgamentos. Eu me julgo o tempo todo. Eu não quero ter que me machucar, eu não quero ter que morrer.
E no entanto eu tenho uma ânsia de existir, apenas porque os outros existem. Se eu pudesse apenas ficar observando de cima sem interferir, tudo bem. Mas eles me puxam para baixo e me fazem ter necessidade deles. É uma propaganda doentia que determina que eu preciso ser de um jeito para existir. Como eu posso existir do jeito deles se nem do meu próprio jeito eu consigo?
Eu apenas existo quando o outro existe. É um breve intervalo da minha não-vida em que eu desço à terra montada em alguma espécie de apoio que promete que não vai me deixar cair. Mas eu caio porque não me seguro. Então volto. Mas tenho saudade. Eu quero existir sem cair....
Ela é tão livre e tão bonita. Me pergunto se ela é bonita porque é livre. O contrário não faz tanto sentido... ela é meio jovem para sentir liberdade a partir da beleza. Tudo nela é fresco e natural e então se torna belo... como eu nunca vou ser. Já que em mim não existe liberdade e onde não entra liberdade, não entra beleza. Ela fica do lado de fora da porta, para quem quiser olhar. E quem quiser entrar..... bom, melhor nem bater na porta.